A hora e a vez da diversidade

2009 November 19

Quando eu era criança e o Pinduca tocava no Festival do Sorvete da Praça Brasil, em Belém do Pará, a classe média da cidade não dava muita bola pra ele. Naquela época carimbó era cafona, coisa de pobre, de caipira. Trinta anos depois, Pinduca está sendo tietado por John e Fernanda Takai no backstage da quarta edição do festival Se Rasgum. E quando sobe ao palco e manda ver nos sucessos que lhe deram o título de O Rei do Carimbó, as cerca de duas mil pessoas presentes na segunda noite do festival dançam, fazem trenzinho e abrem rodas de pogo como se estivessem em um show dos Ramones.

O que é de se admirar em se tratando de um festival que, até dois anos atrás, carregava com orgulho o “Rock” no nome. “Se Rasgum no Rock”, assim mesmo, meio sectário, determinista e limitador, ainda não muito convencido do valor da diversidade musical da cena independente brasileira.

Difícil dizer o que mudou. Talvez tenha sido os roqueiros, pois Pinduca continua o mesmo. Do mesmo jeito que faz desde os anos 70, sobe ao palco como se fosse uma espécie de James Brown amazônico, escoltado por seguranças, com uma banda de 13 integrantes, seis dançarinos e um assistente que se encarrega de segurar a capa que lhe dá um ar de majestade. Em cerca de 45 minutos, toca os mesmos sucessos que todo mundo está careca de ouvir, mas que sempre funcionam: “Carimbó do Macaco”, “Sinhá Pureza” e “Esse Rio é Minha Rua”, entre tantos outros. Dança, faz elogios à Fernanda Takai (“Essa mulher bonita, cheirosa, talentosa”, repetiria ele diversas vezes durante o show) e coloca um garoto com uma camisa de David Bowie para dançar em cima do palco. Toca lambada, merengue e salsa. Termina o show com “Aquarela do Brasil” e sai do palco. No backstage, John e Fernanda já estão a postos para os devidos cumprimentos. A conexão com o Pato Fu se fecharia logo depois no show da banda mineira, que encerrou o
segundo dia do festival, com o casal improvisando no bis uma versão de “Sinhá Pureza”.

O namoro de Pinduca com o Pato Fu fez, para mim, todo o sentido. O que o IV Se Rasgum tinha de irrelevante – o pastiche indie rock de The Baudelaires, Dead Lover’s Twisted Hearts, Dharma Burns e Radiotape – pareceu ficar para trás quando o público passou a assimilar como música pop tudo o que o festival tinha a oferecer.  É o que possibilitou que o mesmo metaleiro que vibrou com os riffs do Black Sabbath que a Comunidade Ninjitsu enfiava no meio das suas músicas dançasse a lambada eletrônica de DJ Dolores e Pio Lobato no projeto Música Magneta. Ou que colocasse no mesmo campo de possibilidades a MPB de vanguarda de Marku Ribas, com sua banda de veteranos cuja habilidade nos instrumentos fez cair o queixo da molecada, e as maluquices e chiliques de Tatá Aeroplano, o líder da banda Cérebro Eletrônico.

Não importa como, o negócio era fazer a informação circular com velocidade e intensidade. Seja entre o público, no palco ou nos bastidores do festival. B Negão com Ras Bernardo no Digital Dubs fechando a conexão Lapa/Caribe/Jamaica no palco secundário. B Negão no palco principal com a Comunidade Ninjitsu cantando “A Dança do Patinho”.  Mano Changes, da Comunidade Ninjitsu, na platéia da banda Tecnoshow vibrando com “Galera da Laje” e “Red Label ou Ice”, os hits supremos das festas de aparelhagem de Belém do Pará.  Gabi Amarantos, vocalista da Tecnoshow, colocando o funk de apartamento do Bonde do Rolê no bolso com o seu tecnobrega safado e nada romântico. John, do Pato Fu, decepcionado porque perdeu o show de Gabi. Pedro, Gorky, Laura e Ana, do Bonde do Rolê, suando a camisa, mostrando os peitos e arriando as calças para tentar superar, sem sucesso, o caos que a Tecnoshow instaurou no palco secundário.  Esdras Neném, baterista de Marku Ribas, no backstage trocando idéia com Durk, baixista do Gork, prestando atenção em tudo, pilhado com as bandas mais novas e pesadas do festival. O uruguaio Paracetamol, vocalista do Hablan por La Espalda, tietando Jaime Katarro, da banda de hardcore Delinquentes. Jaime Katarro no palco secundário incitando o pogo e o mosh ao cantar uma versão thrash metal de “Pescador, Pescador”, um dos maiores sucessos de…Pinduca!

E o mais irônico é que a banda que deu origem a essa maluquice toda, que cruzou gêneros e fez o roqueiro perder a vergonha de ser brasileiro, pareça estar com o seu prazo de validade vencido. Só isso explica a apresentação arrastada e burocrática que Jorge Du Peixe e companhia fizeram no IV Se Rasgum. As músicas novas não empolgam e a banda soa repetitiva, com um vocalista sem carisma e pouco talento para criar melodias interessantes. Sobram os batuques (que dão no saco depois de uma hora e meia de show), duas ou três músicas mais pesadas e os sucessos compostos por Chico Science, que até animam os fãs mais xiitas da banda pernambucana. Mas a essa altura o jogo estava perdido e boa parte do público já tinha desistido de esperar algo mais da Nação Zumbi.

É engraçado ver que, ao mesmo tempo que os seus filhos e herdeiros descobrem e abraçam a diversidade, o grupo liderado por Du Peixe e Lúcio Maia se feche cada vez mais, reduzindo o seu som a uma fórmula meio caduca, como se eles próprios tivessem tirado a parabólica do mangue e esquecido as lições de Da Lama ao Caos e Afrocibederlia. O que era para ser um dos grandes momentos do festival tornou-se quase um constrangimento. Não que isso me desanime. A julgar pela disposição do público e das bandas, o legado da Nação e do mangue beat continua. Se não como música, pelo menos como conceito. No Se Rasgum, no Goiânia Noise, no Calango e nos outros 33 festivais que acontecem anualmente por todo o país. Vista assim, de perto e de dentro, a música independente brasileira nunca pareceu tão interessante.

Caetano Veloso não acredita em lágrimas

2009 November 6
by vcunha

- O senhor quer o quê?, perguntou o balconista da padaria pela quinta vez.
- Quero lirios plásticos do campo e do contracampo. Telástico cinemascope teu sorriso tudo isso. Tudo ido e lido e lindo e vindo do vivido, respondeu Caetano Veloso.
- Como que é?
- Quero teu bom só para o oco, minha falta. Sou Gitá Gogóia.

Já estava juntando gente. E uns espertinhos começaram a perguntar qualquer coisa só para tirar onda.

- E aí?, gritou para Caetano um sujeito sentado no balcão, vai dá Framengo ou Fruminense?
- Vai dar coro de cor sombra de som de cor de mal me quer…
- Aê, o maluco tá boladão, respondeu, em meio a gargalhadas gerais, um técnico da Telerj que arrumava a fiação telefônica do local.

Foi quando Dona Alzira, a governanta, chegou apressada, enxugando as mãos no avental do uniforme.

- Seu Caetano, tá todo mundo preocupado lá em casa, por onde o senhor andou?
- Andei por mais distante que o errante navegante…
- Faz meia-hora que ele tá assim, explicou o balconista.
- Minha Nossa Senhora.
- Senhora de Santo Amaro da Purificação de verde ver pé de capim, bico de pena pio de bem te vi…

Tinha começado mês passado, quando o morador do 601 resolveu puxar conversa no elevador.

- Calor, hein? Será que vai chover?
- Se vai chover ou não é sonho-segredo. Não é segredo…
- Hã?
- O que?, retrucou Caetano assustado.
- Nada não…eu, hein.

Naquele dia Caetano não dormiu, preocupado. E foi piorando. Certa vez, jogando WAR, avisou que seu objetivo era “conquistar uma coisa qualquer em você”. Alguém perguntava se ele queria almoçar e a resposta podia ser tanto “sim” quanto “Eu quero um bife de Coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro. Prego cego durando na palma polpa da mão ao sol”. A família decidiu levar no médico. Durante a consulta, Caetano reclamou da bexiga e disse que “estava travado a mente na ideologia”. Já não conseguia mais falar como gente. A imprensa publicava suas entrevistas bombásticas e incompreensíveis como se ele fosse Moisés descendo o Monte Sinai com as Tábuas da Lei. “Lula não diz o que junhos de fumaça e frio”, foi sua declaração definitiva sobre o escândalo do mensalão publicada em um jornal paulista. “Em que se passara passa passará o raro pesadelo”, apressou-se em declarar Caetano assim que o Rio de Janeiro foi escolhido como sede das Olimpíadas. Os jornalistas adoravam, os jornais repercutiam e a classe média fazia que entendia.

Só Dona Alzira, não se sabe como, conseguia decifrar o idioma caetânico inventado pelo patrão.

- O senhor quer o que?, perguntou Alzira, intermediando a conversa entre Caetano e o balconista.
- Quero me dedicar a criar confusões de prosódia. Quero que pinte um Amor Bethânia.
- Moço, ele quer um pastel de queijo e uma coxinha de galinha, explicou ela ao balconista.
- E pra beber?, perguntou o rapaz, já meio aliviado.
- Densa e negra como as águas do Abaeté, arrudiada de areia branca, arrudiada…
- Uma coca light, traduziu a governanta.

Caetano comeu e pagou no cartão. Mas ao invés de assinar seu nome escreveu no boleto um poema de 173 linhas sobre Joaquim Nabuco. O caixa reclamou. Pra evitar confusão, Dona Alzira tirou cinco reais do sutiã e pagou a conta.

Na saída, um rapaz passou por Caetano e lhe perguntou as horas.

- Hora da palavra. Quando não se…
- Bora embora, seu Caetano, bora embora, cortou Alzira empurrando o patrão de volta pra casa.

Três bons filmes com Al Pacino que ninguém lembra mais que ele fez

2009 November 4
by vcunha

Cruising (Dir: William Friedkin) - Se tem um filme complicado é esse. Tem gente que ama, tem gente que odeia. E quem odeia em geral é pelos motivos errados. Em parte pelas cenas excessivamente explícitas de sexo gay suado e violento. Pacino é um tira de Nova York que aceita uma missão espinhosa: se infiltrar no submundo gay da região dos açougues de Manhatan, servindo de isca para um serial killer assassino de homossexuais. E quando digo submundo é submundo MESMO. Esqueça o colorido das drag queens e a alegria disco do Village People. O negócio aqui é couro, correntes, punk rock e sexo nas quebradas mais fedorentas de Nova York. O resultado em uma descrição não muito simpática da sub-cultura gay S&M dos anos 70. E não é para menos: no filme, ser gay significa andar parece um metaleiro, pegar porrada e trepar com qualquer um que passe pela frente. Obviamente a brincadeira enfureceu os ativistas pelos direitos dos homossexuais, que boicotaram o filme e organizaram brigadas cuja missão era atrapalhar as gravações. Política à parte, Cruising é um bom filme policial de horror, ambíguo e interessante por mostrar os dilemas morais de Pacino, cada vez mais perturbado com a própria sexualidade à medida que mergulha em infindáveis orgias e sessões de sexo sem compromisso.

Scarecrow (Dir:Jerry Schatzberg) - O mais foda é saber que Pacino fez esse filme modesto e despretensioso logo depois do mega-sucesso de O Poderoso Chefão, que foi o que lhe transformou no astro que é hoje. Basicamente é um road movie, uma espécie de Perdidos na Noite pé na estrada que conta a história de Max (Genne Hackman) e Lionel (Al Pacino), uma dupla de perdedores, cada qual lidando a sua maneira com o fim do Sonho Americano. O tempo passa e o que era desespero e solidão se transforma em laços verdadeiros de amizade e afeto, ainda que os dois homens estejam constantemente imersos em uma realidade violenta e decadente.

The Panic in the Needle Park (Dir: Jerry Schatzberg) - Tão realista que mais parece um documentário, The Panic in Needle Park mostra o dia-a-dia dos viciados em heroína de Manhatan. Como todos os filmes do período, a cidade é um lugar feio, sujo e violento, bem diferente da Nova York glamourosa e descolada de seriados como Friends e Sex & The City. Os personagens não fazem muita coisa além de perambular pra lá e pra cá, sempre envolvidos em pequenos golpes e sessões de consumo de heroína. E no meio de tudo isso, uma história de amor envolvendo Bobby (Pacino) e Hellen (Kitty Winn), que desde o começo a gente sabe que não vai terminar bem.

Christian Slater, Kurt Cobain e dois filmes que você deveria ver

2009 October 29

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“Às vezes você não tem a sensação de que a América está completamente fodida?”

Os subúrbios norte-americanos nunca pareceram tão sombrios quanto na cena de abertura de Pump Up the Volume. Ela é escura, lenta e suas imagens emolduram um monólogo desencantado de Christian Slater sobre a falta de perspectivas deste final de anos 80.

Slater é Happy Harry Hard On. Mais que um DJ de rádio pirata, ele é a voz dos adolescentes entediados e reprimidos da Hubert Humpfrey High School.

O anti-Ferris Bueller, que ao invés de celebrar a vida lembra a todos o quanto ela pode ser uma merda. O fã de Leonard Cohen, Sonic Youth, Pixies e Soundgarden que reclama que o mundo está virando uma imensa Disneylândia e coloca seus ouvintes no ar para falar abertamente de estupro, suicídio e repressão sexual.

E que convoca a molecada do fim de mundo onde mora a botar pra foder ao som Kick Out the Jams, numa versão inacreditavelmente do caralho feita pelos Bad Brains em parceria com a Rollins Band.

Mas Happy Harry Hard On é também J.D., o adolescente desajustado também vivido por Christian Slater que, junto com Wynona Rider, termina por levar a cabo um sinistro plano de vingança contra as meninas mais populares do colégio no filme Heathers, uma fábula amarga sobre a realidade das escolas norte-americanas, que de tão subversiva e violenta seria impossível de ser filmada nos dias de hoje.

Heathers e Pump Up the Volume são obras que se complementam. E encontram na figura de Christian Slater o veículo ideal para suas digressões sobre a condição do adolescente norte-americano da época.

Duvida? Então veja os monólogos inconformados de Happy Harry, tão perdido quanto seus ouvintes nas ruas sem fim da suburbia norte-americana.

Ou melhor: assista Heathers e as maquinações psicopatas de J.D., disposto com ninguém a acabar com a patifaria das meninas e meninos mais populares do colégio onde estuda.

Claro que ver Pump Up the Volume e Heathers depois dos 30 não tem a mesma graça. Afinal você já tem dinheiro, arrumar uma gata para uma trepada eventual não é mais um drama e, espero eu, descobriu que existe vida inteligente fora da escola, do clube e do condomínio.

Mas para o adolescente fodido e durango – e, vá lá, para alguém nos seu vinte e poucos anos, recém entrado na vida adulta – ambos os filmes são pau puro. Rebeldia e inconformismo na veia.

E ainda tem a trilha sonora, com o que havia de melhor na cena alternativa da época.

De um jeito meio maluco, Heathers e Pump Up the Volume antecipam outro fenômeno do mesmo período: aquele trio de porras-loucas de Seattle que, um ano depois de Pump Up the Volume estrear no cinema, fodeu com a indústria da música ao lançar um single de nome estranho e um clip vagabundo gravado num ginásio de escola, uma sacanagem meio torta com líderes de torcida, atletas, gatinhas populares e todo o sistema de castas dos colégios norte-americanos.

Happy Harry é lado atormentado de Kurt Cobain, o ídolo desgostoso com o seu papel de porta-voz de uma geração. À sua revelia, passa a liderar uma pequena revolução, que assume contornos cada vez mais trágicos à medida que Pump Up the Volume se encaminha para o final. E J.D. a metade punk  e violenta do líder do Nirvana, a pedrada na cara e a vontade de botar pra foder.

Ambos, cada um a seu modo, lutam contra o conformismo, a “ôtoridade” e a bunda-molice, seja ela na figura de uma diretora de escola repressiva ou de uma líder de torcida.

Não por acaso, os mesmos conflitos existenciais de Cobain, um sujeito que nunca ficou muito confortável com a carga de responsabilidade e expectativa gerada pelo sucesso do Nirvana mas que, ao mesmo tempo, não resistia à necessidade de ir a público jogar merda no ventilador.

Como Happy Harry, que só queria ter o seu programinha de rádio para extravasar suas angústias e tocar uns sons legais e, de repente, descobre que virou um catalizador da  raiva e do inconformismo de seus colegas de escola.

Heathers e Pump Up the Volume nunca foram sucessos de bilheteria. Ainda estávamos nos anos 80, se não cronologicamente, pelo menos em espírito, e filmes sobre música alternativa, rádios piratas, adolescentes em crise e o classicismo do sistema educacional norte-americano não tinham mesmo como dar certo.

Tivessem sido feitos alguns anos depois - quando Kurt Cobain e Smells Like Teen Spirit tomaram de assalto a MTV e a Nação Alternativa dominou o mundo, levando as corporações a descobrir que o inconformismo e o underground podiam dar (muito) dinheiro - talvez se transformassem em ícones pop tão cultuados quanto Pulp Fiction, Trainspoting ou Assassinos por Natureza.

Mas isso não aconteceu. E nem Christian Slater se transformou no astro que prometia se transformar. Talvez porque, ao contrário de Johhny Depp e Keanu Reeves, nunca teve um blockbuster para chamar de seu.

Mas, em algum ponto do final dos anos 80, ele faria dois filmes que ajudariam a definir o espírito do tempo da geração seguinte.

E o fez de maneira profética. Como quando Happy Harry grita desesperado e se pergunta se um dia irá surgir uma voz capaz de dar vazão à toda angústia e vazio existencial dos filhos da América.

Mal sabia ele que era só uma questão de tempo.

A Clockwork Playmo

2009 October 23
by vcunha

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Uma boa idéia para os fabricantes de brinquedos: Playmobil Laranja Mecânica.  O dia que tiver pra vender eu compro.

Radio Bemba aqui presente

2009 October 23
by vcunha

Trecho de Baionarena, o novo DVD ao vivo do Manu Chao. Menos axé e mais hardcore, como nos bons tempo de La Mano Negra.

Rock’n'Roll All Night

2009 October 22
by vcunha

Tatu da Ilha da Fantasia + Jackie Chan + Keith Moon = O Baterista Mais Comédia do Mundo.

Cinebizarro apresenta: a última transmissão pirata.

2009 October 22
by vcunha

Teleevangelismo, infomerciais, sexo bizarro, luta-livre clandestina, heavy-metal, filmes de monstro, satanismo, paraciências, conspiração, música ruim, programas de televisão transmitidos sabe Deus de onde, câmeras de vigilância, arte urbana de guerrilha…imagine tudo de ruim, escabroso, esquisito e mal-feito que a indústria do entretenimento e centenas de subculturas espalhadas pelos infinitos subúrbios norte-americanos são capazes de produzir e talvez aí você comece a entender como funciona o mundo das vídeo-mixtapes.

O ritmo da edição é frenético e a intenção é fazer o espectador soltar a maior quantidade de “putaquepariu” ou “que merda é essa?” por segundo. Obviamente uma mixtape não se faz com filmes do Ed Wood ou cenas de A Volta dos Mortos Vivos. Isso é para os amadores. O que dá a liga é você se perguntar como diabos o sujeito fez para achar o vídeo da “Lavagem Intestinal do Espírito Santo” ou o clip da Jewish Momma, a primeira rapper judia da terceira idade (os caras do Retard-O-Tron acharam). Se o espectador já viu aquilo antes ou sabe a fonte, então o autor da mixtape falhou miseravelmente.

Sinta o poder da “Lavagem Intestinal do Espírito Santo”. Cortesia da rapaziada do Retard-O-Tron.

E aí vale-tudo, meu colega: surf music indiana, a cena industrial do interior do Wisconsin, luta-livre com arame farpado e esse bando de porcaria que eu citei pra chamar atenção lá no primeiro parágrafo e manter vocês lendo o texto até aqui.

Na Pyschedelic Hell Trip você encontra um clip muito fofo com os palhaços mais assustadores do mundo.

Na Pyschedelic Hell Trip você encontra um clip muito fofo com os palhaços mais assustadores do mundo.

As mixtapes de vídeo são um fenômeno tipicamente norte-americano, cuja origem remonta ao começo dos anos 80, quando a rapaziada desocupada da Terra de Marlboro começou a ter video-cassete em casa. O sujeito ficava o dia inteiro coçando o saco e vendo TV a cabo (outra novidade). De repente se ligava que podia gravar todo aquele lixo e guardar para a posteridade. Foi dessas centenas de fitas que estavam mofando no armário que surgiram as primeiras mixtapes da história.

No Brasil, ela tiveram os seus cinco minutos de fama no começo dos anos 90, quando o VJ João Gordo escreveu um artigo para a revista Bizz sobre a mixtape Video Macumba, uma parada bizarríssima feita pelo vocalista Mike Patton, então à frente do Faith No More, conhecido por seus gostos esquisitos e hábitos excêntricos, como se urinar todo no palco e escrever letras sobre procedimentos cirúrgicos, entre outras coisas.

Durante um bom tempo as mixtapes ficaram esquecidas em um canto empoeirado da cultura pop. Mas foi graças à internet que elas voltaram a circular no underground. Isso por conta da facilidade em obter matéria-prima e disseminar o produto via torrent e foruns de troca de vídeos obscuros. Por conta disso, as mixtapes ganharam novamente o status de subcultura. Voltando, inclusive, a ser produzidas por coletivos como o Retard-O-Tron e a Skeleton Farm.

“Os monstros mais imbecis do cinema”. Retard-O-Tron também é cultura.

Dia desses um amigo me questionava pra que servem as mixtapes de vídeo, já que não conseguia entender qual a sua utilidade prática, já que, tecnicamente, elas não são cinema, apenas um apanhado de trechos dos aspectos mais obscuros da cultura pop.

Surf music, peitos balançando e bundas remexendo.Um bom motivo para baixar a série Lost & Found Video Nights.

Ok…o que eu disse para ele é que é isso mesmo, que em termos práticos vídeo-mixtape não serve pra porra nenhuma. Serve, sim, para ver de galera, dando risada com os camaradas e tirando barato de quem não aguenta a podreira e pede pra desligar, de preferência acompanhado de muitas latas de cerveja ou de um beck. E só. Esperar mais do que isso de um troço desses é como querer que, de repente, a Mulher-Melancia anuncie na TV que conseguiu resolver a Teoria das Supercordas.

As melhores video-mixtapes de todos os tempos da última semana:

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Retard-O-Tron - O nome já diz tudo. Tem sexo não-convencional? Tem. Tem filme de monstro? Tem. Tem luta-livre com arame farpado? Tem. Tem acidentes que os Vídeos Incríveis nunca teriam coragem de mostrar? Tem. Então pronto, você já foi avisado. Baixe por sua conta e risco.

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Psychedelic Hell Trip -Junto com o Retard-O-Tron talvez seja uma das mixtapes mais profissionais da internet. Produzida pela Skeleton Farm, um coletivo de malucos com um talento imenso para garimpar obscuridades, ela vai fundo em teleevangelismo, infomerciais, filmes trash e programas de televisão do interior dos Estados Unidos. Às vezes pega um pouco pesado na pornografia bizarra, mas nada que se resolva apertando o FF do controle remoto do DVD.

A foto acima é de um japonês pintado de cachorro com a mão no rabo fingindo que é a língua do bicho. Entendeu? A foto acima é de um japonês pintado de cachorro com a mão no rabo fingindo que é a língua do bicho.

A foto acima é de um japonês pintado de cachorro com a mão no rabo fingindo que é a língua do bicho. Entendeu? A foto acima é de um japonês pintado de cachorro com a mão no rabo fingindo que é a língua do bicho.

Super Mecha Kucha Happy Fun Monkey Bash -Essa é do balacobaco. São quase seis horas de televisão japonesa. Comerciais - tem Mel Gibson, Tarantino e Brad Pitt vendendo os produtos mais improváveis -, programas de auditório, game-shows esquisitíssimos, shows de humor (acredite, dá pra rir pra caralho mesmo sem manjar nada de japonês) e pegadinhas que fazem o Ivo Holanda parecer um amador. Dada a qualidade do material apresentado, a impressão que dá é que, no Japão, qualquer um pode abrir um canal de TV.

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Lost & Found Video Night - É uma mixtape família, por assim dizer (tem até Mutantes e Trapalhões!). O forte da Lost & Found (que já está em seu sétimo volume) são filmes trash dos anos 60 e 70, clips bizarros de várias partes do mundo (os melhores são os de rock indiano), comerciais de TV e teleevangelismo. Dá até para asssistir com a namorada, rapaz, pois não tem sequer mulher pelada. Pode botar fé, o “indice vomital” aqui é zero.

Isso dá medo

2009 October 21
by vcunha

Sério…

Pequeno poema roubado

2009 October 21
by vcunha

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio, mão piedosa:
“Aqui dorme Vladimir Cunha, o putanheiro;
passou a vida folgada e milagrosa;
comeu, bebeu, fodeu, sem ter dinheiro.”