Skip to content

Hip-hip-hipster

2010 November 21

Se você tem mais de 30 anos você aprendeu a segmentar informação. Rock é rock, pop é pop, bicha é bicha. É o que separa você, que cresceu nos anos 70 e 80, da tal Geração Y, que floresceu sob uma nuvem de consumo pleno e saturação sensorial. E é, ao mesmo tempo, a glória e a ruína de quem tem 20 e poucos anos em 2010.

Porque faz todo o sentido que o cantor Mika tenha feito um dos melhores shows do Planeta Terra 2010 e que, justo ele, represente o que a música desse começo de milênio tem de mais descartável, confusa e (porque não?) fascinante.

Ele prova que qualquer convicção ideológica ou artística pode ser minada por uma pós-modernidade turbinada, capaz de permitir que fragmentos diversos de cultura pop possam ser usados e recombinados em nome da diversão. A reação é instintiva e não cerebral, talvez porque um show como esse aborte qualquer tipo de reflexão ou porque não exista mais espaço para a reflexão nos anos 00. Mika é Glee e Elton John, é Fred Mercury e Donna Summer, um musical da Broadway itinerante, pansexual e chapado para fãs saudosistas de O Rei Leão e A Pequena Sereia.

A figura do cantor libanês é o ponto onde se encontram todos os aspectos da cultura gay que, aqui e ali, permaneciam dispersos nas horas iniciais do Planeta Terra. O homossexualismo infantilizado do Of Montreal, a platéia obcecada por moda, os signos e dress-codes que remetem às festas hipster do Glória e aos bares mais tolerantes do Baixo Augusta. Ainda assim, a informação aqui não é mais segmentada, pois todos nós aceitamos que Mika possa ser rock, disco, gay, hétero, animação da Disney e pornografia softcore.

Só que, por mais que a sua alegria sinceramente alienada seja cativante, ninguém usaria uma camiseta com a cara de Mika ou de Thomas Mars estampada, muito embora garotos ostentando com orgulho camisetas de Kurt Cobain e Axl Rose ainda possam ser encontrados aos montes por aí. Mesmo que Mika saiba como comandar uma multidão e que Mars tenha se jogado em um crowd surfing digno dos anos de glória de Eddie Veder, quando todos nós éramos grunges, machistas e cheios de testosterona e problemas de auto-afirmação.

É quando fica claro pra mim que a música pop pode ter se tornado mais gregária e menos individualista, mais orientada para a celebração coletiva do que para o culto à figura do artista como o centro do espetáculo. Não à toa, os dois grandes fiascos musicais do ano – Los Hermanos no SWU e Smashing Pumpkins no Terra – surgiram justamente desse modelo, dessa proposta auto-indulgente de distanciamento do público e pouco caso com as regras da nova música pop.

Pois no mundo não há mais espaço para os solos de bateria do Smashing Pumpkins e nem para que Billy Corgan saia do armário e assuma que sempre foi um metaleiro enrustido. Melhor fez Stephen Malkmus, que entendeu o espírito da coisa e caiu na farra, tocando todos os hits que os fãs queriam que ele tocasse sem se importar com o fato de que há 11 anos a sua banda não lança uma música inédita.

Não se trata de pedir que o rock seja enterrado de uma vez por todas. O nó cultural ultra-pós-moderno do Planeta Terra tornou-se tão difícil de desatar que até os vovozinhos indies do Pavement se jogaram na pista ao invés de ficar em um canto da sala olhando a molecada se divertir. A diferença é que, ao contrário de Billy Corgan, eles eliminaram a tensão estática que separa a sua geração da geração que foi em massa ao festival no último sábado. Numa seqüência que começou com o som avant-garde do Hurtmold e se completou com Of Montreal, Phoenix, Mika e Pavement, “querer rock” não significava mais do que um gesto caricato, como o forrozeiro Zenilton em sua atrapalhada intervenção em Puteiro em João Pessoa. Segmentar informação pode servir como ferramenta saudosista ou processo de auto-afirmação. Por outro lado, cogitar todas as possibilidades pode ser a única maneira de sobreviver ao futuro.

Comments are closed.